Feltragem

Feltragem

A feltragem é o processo de criação de um tecido, durável. É uma transformação maravilhosa de pedaços de fibras de lã pura, numa tela não tecida.

É a mais antiga técnica conhecida para criar um têxtil, tendo surgido antes da tecelagem ou da fiação.

Existem dois tipos de feltro: feltro artesanal, e feltro industrial.

A feltragem é possível por causa da estrutura da lã, das escamas que possui, embora algumas fibras sejam mais fáceis de feltrar do que outras. O feltro é produzido pela pressão e fricção das fibras, que se condensam e entrelaçam, possibilitando a criação de tecidos consistentes.

Na feltragem tradicional encontramos duas técnicas distintas. O feltro molhado e o feltro seco, trabalhado com agulha.

Feltragem com água e sabão

Feltragem manual com água e sabão

Na técnica de feltragem molhada, ou feltragem com água e sabão, a fibra natural de lã, é estimulada por um processo de fricção e lubrificação, com  a água quente e sabão  (normalmente de azeite puro), abrindo as escamas das fibras, que se entrecruzam e entrelaçam, nos movimentos de rolar e amassar.

Trata-se de um processo contínuo e demorado, trabalhando-se com a fricção pequenas porções de fibras de cada vez. Ao serem fricionadas, as fibras de lã passam por um processo de encolhimento, que aumentará com a força e com o tempo que se estiver a esfregar. O feltro torna-se cada vez mais duro e resistente e encolhe bastante. As fibras, ficam tão aglomeradas, que o tecido resultante pode ser trabalhado e costurado.

Provavelmente, já todos tiveram o desgosto de “perder” uma peça de lã, que encolheu dois ou três tamanhos, depois de ter sido lavada à máquina com água quente e detergente. Essa peça passou por um processo de feltragem!

Antes de iniciar uma peça com esta técnica é conveniente, fazer uma pequena amostra, para se ter a noção do encolhimento de cada lã e de qual será a mais indicada para cada projeto.

Ser e sentir-se artesão

Ser e sentir-se artesão

Sendo este o 1º artigo de um blog, integrado no site onde pretendo divulgar o meu trabalho, parece-me de bom-tom que aflore a temática do artesanato e do sentir-se artesão.

O meu percurso e as pessoas que fui conhecendo pelo caminho, levam-me a algumas reflexões.

Tenho o privilégio de viver num país com uma grande riqueza e diversidade ao nível do artesanato.

Penso que podemos pensar em dois tipos de artesanato. Por um lado, um tipo de artesanato ligado ao saber fazer, passado de geração ou geração, com identidade e características próprias que devem ser respeitadas e valorizadas a fim de se proteger o enorme património cultural que constituem. Por outro lado, um tipo de artesanato mais criativo, em que as regras parecem ser quebradas. Em que uma ideia, um valor passa para as peças, e cria novas leituras, através de um trabalho sistemático e paciente.

Acredito que o tipo de trabalho que desenvolvo, se move neste tipo de abordagem mais criativa.

Por vezes, não se cria nada de novo, apenas se muda a forma como se utilizam e se combinam os materiais e as técnicas.

Tenho percebido que é comum aos artesãos a paixão, e o amor com que se fazem as peças. Uma forma de vida esgotante e desafiadora, em que é preciso provar constantemente o seu valor. Em que é preciso aperfeiçoar constantemente o saber fazer e a criatividade. Em que é preciso procurar a excelência.

Ser artesão é fazer nascer uma nova identidade, uma nova assinatura, um novo legado, que poderá ser reconhecido e valorizado pelos outros, ou que poderá ser esquecido para sempre.

Ser artesão é um processo contínuo e em constante mudança, evolução e aprendizagem, que leva à criação de peças com uma identidade própria, uma assinatura em que se vislumbra a alma de quem as criou.

Ser artesão é ter um dom e deixa-lo ser o nosso guia. É estar disposto a  aceitar o talento, a aguçar o engenho e a alimentar a arte. É aceitar o esforço e a dedicação continuada que ele exige. É saborear uma satisfação que consome engenho e forças.

Ser artesão é revelar no seu trabalho um apurado sentido estético e grande perícia manual no domínio de saberes e técnicas necessárias à criação das peças.

O trabalho do artesão é experimental, algumas vezes com resultados pouco satisfatórios, mas sendo também eles marcos de aprendizagem e evolução, pois do erro nascem muitas vezes novas leituras.

O trabalho do artesão é uma comunicação constante entre ele, as matérias-primas, as ferramentas e as técnicas utilizadas. Daqui surgem peças apaixonadas, muitas vezes pouco fieis às ideias originais.

Ser artesão é muito diferente do simples ato mecânico repetitivo de manufatura do mesmo produto. Há uma vontade, um desejo, uma ânsia de criar, de descobrir de experimentar sempre mais, sempre algo novo, sempre algo mais… Uma sede de descoberta, um sonho de aperfeiçoar, de se aproximar do belo, do simples, do artístico, do honesto, do genuíno.

Ser artesão é saber contar a história de cada peça, que se cruza com pedaços de si próprio, das suas vivências, dos seus afetos. E para o consumidor será, talvez o desvendar dessa história, o mais significativo para a aquisição de determinada peça e da sua valorização.