Mantas com histórias - Conceito

Contar histórias a partir de painéis ou mantas de tecido é uma manifestação popular recorrente em diferentes culturas em todo o mundo e em todas as épocas históricas. Em França, no ano de 1988, a educadora Clotilde Hammam e o seu filho Tarak Hamman inspiraram-se nesta tradição, criando tapetes para contar histórias e dando origem ao projeto Reconte-Tapis, que tem vindo, desde então a divulgar-se um pouco por toda a Europa.

Acredito que o acesso ao livro e à leitura seja primordial para a construção do ser humano, para o seu estabelecimento de relações com o mundo, sendo um meio propiciador de transformações mágicas.

As mantas com histórias que costuro, pretendem ser uma possibilidade de transportar narrativas, criando e ampliando o gosto pela leitura. Podem ser utilizadas com fins pedagógicos, lúdicos e artísticos. Permitem que as crianças se apropriem das histórias e as ampliem e diversifiquem pelo exercício do reconto e manipulação de personagens.

 

As histórias

Algumas das minhas mantas com histórias, baseiam-se em livros de autores e ilustradores para a infância. Tal é o caso das mantas “A festa de anos”, de Luísa Ducla Soares, e “O beijo da Palavrinha” de Mia Couto.

Outras sugiram como resposta a desafios concretos, como a história do mágico Horácio. Sendo um texto original e que permite inúmeros desfechos consoante o contexto em que irá ser utilizada.

O beijo da Palavrinha

“O beijo da Palavrinha”

Neste painel procurei representar os ambientes chave da história, o universo onde habitam a Maria Poeirinha e sua família. Tentei captar o encanto das palavras de Mia Couto e a luz das lindíssimas ilustrações de Danuta Wojciechowska, explorando outros materiais.

A vontade de criar este Painel de histórias, surgiu no âmbito de um atelier de construção de tapetes de histórias, promovido pela associação I Create, onde tive o prazer de ser formadora com uma amiga muito especial, a Ana Cruz, que vive no mundo das histórias com que encanta quem a escuta.

Uma das formadas falou-me desta história e perguntou-me qual era a minha visão para um tapete de histórias.

Depois de ler o texto do Mia Couto e de me encantar com as ilustrações de Danuta Wojciechowska, tornou-se claro para mim que a melhor forma de manter a fluidez, a leveza e os pormenores da ilustração, seria utilizando lãs, água e sabão. E assim coloquei a mim mesma o desafio de feltrar a história.

Iniciei o painel, tendo o cuidado de nele espelhar as cores, o movimento e os ambientes mais fortes da história. Africa com as suas paisagens e cores fortes, o mar, central na história e que se mistura com a terra e com o céu, libertador e acolhedor. A palavra mar e a sua representação omnipresente. Também as personagens são costuradas em feltro e as suas roupas feltradas para manterem uma coerência e integração perfeitas no painel. Senti necessidade de realçar pormenores recorrendo ao bordado artesanal com linhas e rafia. Gosto muito do resultado final, pois penso que faz uma homenagem ao livro e nos permite mergulhar na essência da história.

Detalhes do projecto

A tapeçaria tem cerca de 1 m, por 70 cm e foi realizada em lã de merino e fios de algodão, em muitas horas de sonhos e trabalho…

Chamava-se Maria Poeirinha.

Viviam numa aldeia tão interior que acreditavam que o rio que ali passava não tinha nem fim nem foz.

Poeirinha só ganhara um irmão. O Zeca Zonzo, que era desprovido de juízo.

Um certo dia chegou à aldeia o Tio Jaime Litorânio, que achou grave que os seus familiares nunca tivessem conhecido os azuis do mar.

Certa vez, a menina adoeceu gravemente. A mãe pegou nas mãos da menina. E entoou as velhas canções de embalar.

O tio não teve dúvida: teriam de a levar à costa.

– Mas o mar cura assim tão de verdade?

Não há tempo a perder.

Não vale a pena mano Zonzo, eu já não distingo a letra.

Não importa Poeirinha, eu lhe conduzo o dedo, por cima do meu.

– É isso manito. Essa letra é feita por ondas.

E sorriram os dois, perante o espanto dos presentes. Como se descobrissem algo, que mais ninguém sabia.

A Festa de Anos

A festa de anos

 

O livro da Luísa Ducla Soares “A festa de anos”, conta uma divertida história de aniversário e tem uma bonita ilustração de Chico, publicada pela Civilização no ano de 2004.

Costurei as suas ternurentas personagens e adereços da história, surgindo  uma manta que me  tem permitido desfrutar da sua partilha, tanto em situações mais lúdicas, como festas de aniversário, como em situações com caráter mais didático.

Os amigos da Catrapuz

A avestruz Catrapuz

A avestruz Catrapus

O cão Sultão

Cão Sultão

O rapaz Tomás

Tomás e ovo

A gatita Tita

Gatita Tita

A foca Pinoca

Foca Pinoca

A avestruz Catrapus fazia anos.

– Vou dar uma festa e convidar os meus amigos.

Estava tudo pronto. Sentou-se de patas cruzadas dentro do ninho, à espera dos convidados.

– Espero que gostes…

A avestruz Catrapus ficou toda contente.

– Quem adivinha o que eu trago?

-Se ainda não têm fome, vamos começar o baile.

-Ah! Como é bom ter amigos!

O grande mágico Horácio

O grande mágico Horácio

A lua surgia no horizonte, quando o mágico chegou à cidade onde iria fazer uma temporada de espetáculos. Esperava ficar um mês, se tudo corresse bem.

Como adorava a magia! O espanto e o riso que conseguia acender nos seus espectadores. Sempre tinha vivido entre palcos e aplausos, pois os seus pais tinham tido o seu próprio espetáculo itinerante de magia na sua juventude. Deles herdou o gosto e a sabedoria de usar uma cartola. Herdou também uma pequena roulotte, pintada com grandes letras vermelhas e douradas, onde se lia: “Horácio, o mágico”. (…)