Sendo este o 1º artigo de um blog, integrado no site onde pretendo divulgar o meu trabalho, parece-me de bom-tom que aflore a temática do artesanato e do sentir-se artesão.

O meu percurso e as pessoas que fui conhecendo pelo caminho, levam-me a algumas reflexões.

Tenho o privilégio de viver num país com uma grande riqueza e diversidade ao nível do artesanato.

Penso que podemos pensar em dois tipos de artesanato. Por um lado, um tipo de artesanato ligado ao saber fazer, passado de geração ou geração, com identidade e características próprias que devem ser respeitadas e valorizadas a fim de se proteger o enorme património cultural que constituem. Por outro lado, um tipo de artesanato mais criativo, em que as regras parecem ser quebradas. Em que uma ideia, um valor passa para as peças, e cria novas leituras, através de um trabalho sistemático e paciente.

Acredito que o tipo de trabalho que desenvolvo, se move neste tipo de abordagem mais criativa.

Por vezes, não se cria nada de novo, apenas se muda a forma como se utilizam e se combinam os materiais e as técnicas.

Tenho percebido que é comum aos artesãos a paixão, e o amor com que se fazem as peças. Uma forma de vida esgotante e desafiadora, em que é preciso provar constantemente o seu valor. Em que é preciso aperfeiçoar constantemente o saber fazer e a criatividade. Em que é preciso procurar a excelência.

Ser artesão é fazer nascer uma nova identidade, uma nova assinatura, um novo legado, que poderá ser reconhecido e valorizado pelos outros, ou que poderá ser esquecido para sempre.

Ser artesão é um processo contínuo e em constante mudança, evolução e aprendizagem, que leva à criação de peças com uma identidade própria, uma assinatura em que se vislumbra a alma de quem as criou.

Ser artesão é ter um dom e deixa-lo ser o nosso guia. É estar disposto a  aceitar o talento, a aguçar o engenho e a alimentar a arte. É aceitar o esforço e a dedicação continuada que ele exige. É saborear uma satisfação que consome engenho e forças.

Ser artesão é revelar no seu trabalho um apurado sentido estético e grande perícia manual no domínio de saberes e técnicas necessárias à criação das peças.

O trabalho do artesão é experimental, algumas vezes com resultados pouco satisfatórios, mas sendo também eles marcos de aprendizagem e evolução, pois do erro nascem muitas vezes novas leituras.

O trabalho do artesão é uma comunicação constante entre ele, as matérias-primas, as ferramentas e as técnicas utilizadas. Daqui surgem peças apaixonadas, muitas vezes pouco fieis às ideias originais.

Ser artesão é muito diferente do simples ato mecânico repetitivo de manufatura do mesmo produto. Há uma vontade, um desejo, uma ânsia de criar, de descobrir de experimentar sempre mais, sempre algo novo, sempre algo mais… Uma sede de descoberta, um sonho de aperfeiçoar, de se aproximar do belo, do simples, do artístico, do honesto, do genuíno.

Ser artesão é saber contar a história de cada peça, que se cruza com pedaços de si próprio, das suas vivências, dos seus afetos. E para o consumidor será, talvez o desvendar dessa história, o mais significativo para a aquisição de determinada peça e da sua valorização.