Fio do tecido

Fio do tecido


O que é o fio do tecido?

Iniciei hoje uma formação modular, no CEARTE, de Curso Modelista de vestuário – casacos e percebi que precisava urgentemente de aprender alguns conceitos.

Pareceu-me que deveria começar pelo conceito de “fio do tecido”, pela frequência com a formadora nos alertou para a sua existência e importância.

Depois de algumas leituras e pesquisas na internet, fiz algumas ilustrações e sistematizei aqui a informação que me pareceu mais relevante.

Comecemos então, pela estrutura do tecido.

O tecido é formado pelo entrelaçamento de dois fios que se cruzam perpendicularmente:

Urdume (ou teia), é o fio longitudinal, no sentido do comprimento;

Trama, é o fio transversal, no sentido da largura.
O arremate lateral, no sentido do comprimento, é chamado ourela.

Podemos visualizar melhor, se pensarmos num tear manual, que consiste numa armação de madeira em que prendemos vários fios, lado a lado (urdume ou teia), bem esticados. Depois passamos outro fio por entre os fios já esticados (fio de trama). Este fio vai passando um por cima, e outro por baixo, sucessivamente e criando um tecido.

Fio de urdume “O meu livro de lavores”, Editorial Verbo

Fio de urdume “O meu livro de lavores”, Editorial Verbo

Os fios que correm na horizontal, são os fios de urdume, e os fios que passam entre os fios de urdume na vertical são a trama.

Fio de urdume “O meu livro de lavores”, Editorial Verbo

Fio de urdume “O meu livro de lavores”, Editorial Verbo

O fio do tecido, é o sentido em que corre o fio de urdume.

Como o urdume e a trama, assumem funções diferentes no momento da tecelagem, acabam por ter caraterísticas diferentes, que vão influenciar o “cair” da roupa.

O fio de urdume, fica com bastante tensão, ao ser esticado, sendo a base da trama do tecido. Os fios de urdume, geralmente são mais finos, mais torcidos e mais resistentes.

Os fios de trama, passam entre os fios de urdume, sem serem demasiado puxados, tendo pouca tensão. Ficam ondulados no tecido porque seguem um caminho em zigzag em redor dos fios de urdume. Os fios utilizados podem ser menos resistentes e menos torcidos.

Tecido

Peça de tecido

Quando o fio de urdume cai perpendicular ao chão, a roupa tem um melhor “cair”.

O corte em viés é feito a 45˚ do fio de urdume. Neste sentido não passa nenhum fio do tecido, por isso o caimento é mais leve e o tecido estica mais.

Queda do fio reto

Queda do fio reto

 

Queda do fio reto

A ourela cai perpendicular ao chão.

Caimento firme, mas não muito rígido.

 

 

 

 

 

 

 

Queda do fio atravessado

Queda do fio atravessado

 

Queda do fio atravessado

A ourela cai paralela ao chão.

O caimento é armado.

 

 

 

 

 

 

 

Queda do fio enviesado

Queda do fio enviesado

 

Queda do fio enviesado

Os fios de trama e urdume caiem em diagonal em relação ao chão.

O caimento é mole e flexível.

 

 

 

 

 

 

 

 

Como descobrir qual o fio do tecido, mesmo sem ourela?

Temos de investigar o tecido segundo alguns critérios: elasticidade; listras; fios fantasia; ondulação e resistência.

O tecido tem uma certa elasticidade natural no sentido da trama. Se puxarmos o tecido, no sentido do urdume sentimos que ele não cede, não estica nada, enquanto no sentido da trama ele estica. Em tecidos com elastano, este encontra-se no sentido da trama.

Existem tecidos listrados de dois tipos: estampados, e tramados. Nos tramados, ou seja, os que foram feitos com fios coloridos, as listras aparecem iguais no avesso e direito do tecido. As listras tramadas ajudam a identificar o fio porque normalmente os tecidos listrados têm as listras na vertical, ou seja, no urdume.

O fio fantasia é qualquer fio irregular, ou trabalhado, como fios chenille, fios rústicos que têm partes mais grossas que outras, fios metálicos, etc. Quando o tecido tem esse tipo de fio, normalmente ele vai na trama do tecido, pois não são resistentes ou regulares o suficiente para serem urdume.

Outra diferença possível entre os fios de urdume e de trama é a ondulação. Ao desfiar um pouco o tecido, podemos encontrar uma diferença entre a ondulação dos fios de trama e de urdume. Geralmente os fios de urdume são menos ondulados que os fios de trama, ou os ondulados são mais espaçados.

O fio que parte mais facilmente, normalmente, é a trama.

Recomendo os sites da Renata Perito e da Escola de Moda e CIA, para quem tem interesse pelo “corte e costura”.

Feltragem

Feltragem

A feltragem é o processo de criação de um tecido, durável. É uma transformação maravilhosa de pedaços de fibras de lã pura, numa tela não tecida.

É a mais antiga técnica conhecida para criar um têxtil, tendo surgido antes da tecelagem ou da fiação.

Existem dois tipos de feltro: feltro artesanal, e feltro industrial.

A feltragem é possível por causa da estrutura da lã, das escamas que possui, embora algumas fibras sejam mais fáceis de feltrar do que outras. O feltro é produzido pela pressão e fricção das fibras, que se condensam e entrelaçam, possibilitando a criação de tecidos consistentes.

Na feltragem tradicional encontramos duas técnicas distintas. O feltro molhado e o feltro seco, trabalhado com agulha.

Feltragem com água e sabão

Feltragem manual com água e sabão

Na técnica de feltragem molhada, ou feltragem com água e sabão, a fibra natural de lã, é estimulada por um processo de fricção e lubrificação, com  a água quente e sabão  (normalmente de azeite puro), abrindo as escamas das fibras, que se entrecruzam e entrelaçam, nos movimentos de rolar e amassar.

Trata-se de um processo contínuo e demorado, trabalhando-se com a fricção pequenas porções de fibras de cada vez. Ao serem fricionadas, as fibras de lã passam por um processo de encolhimento, que aumentará com a força e com o tempo que se estiver a esfregar. O feltro torna-se cada vez mais duro e resistente e encolhe bastante. As fibras, ficam tão aglomeradas, que o tecido resultante pode ser trabalhado e costurado.

Provavelmente, já todos tiveram o desgosto de “perder” uma peça de lã, que encolheu dois ou três tamanhos, depois de ter sido lavada à máquina com água quente e detergente. Essa peça passou por um processo de feltragem!

Antes de iniciar uma peça com esta técnica é conveniente, fazer uma pequena amostra, para se ter a noção do encolhimento de cada lã e de qual será a mais indicada para cada projeto.

Ser e sentir-se artesão

Ser e sentir-se artesão

Sendo este o 1º artigo de um blog, integrado no site onde pretendo divulgar o meu trabalho, parece-me de bom-tom que aflore a temática do artesanato e do sentir-se artesão.

O meu percurso e as pessoas que fui conhecendo pelo caminho, levam-me a algumas reflexões.

Tenho o privilégio de viver num país com uma grande riqueza e diversidade ao nível do artesanato.

Penso que podemos pensar em dois tipos de artesanato. Por um lado, um tipo de artesanato ligado ao saber fazer, passado de geração ou geração, com identidade e características próprias que devem ser respeitadas e valorizadas a fim de se proteger o enorme património cultural que constituem. Por outro lado, um tipo de artesanato mais criativo, em que as regras parecem ser quebradas. Em que uma ideia, um valor passa para as peças, e cria novas leituras, através de um trabalho sistemático e paciente.

Acredito que o tipo de trabalho que desenvolvo, se move neste tipo de abordagem mais criativa.

Por vezes, não se cria nada de novo, apenas se muda a forma como se utilizam e se combinam os materiais e as técnicas.

Tenho percebido que é comum aos artesãos a paixão, e o amor com que se fazem as peças. Uma forma de vida esgotante e desafiadora, em que é preciso provar constantemente o seu valor. Em que é preciso aperfeiçoar constantemente o saber fazer e a criatividade. Em que é preciso procurar a excelência.

Ser artesão é fazer nascer uma nova identidade, uma nova assinatura, um novo legado, que poderá ser reconhecido e valorizado pelos outros, ou que poderá ser esquecido para sempre.

Ser artesão é um processo contínuo e em constante mudança, evolução e aprendizagem, que leva à criação de peças com uma identidade própria, uma assinatura em que se vislumbra a alma de quem as criou.

Ser artesão é ter um dom e deixa-lo ser o nosso guia. É estar disposto a  aceitar o talento, a aguçar o engenho e a alimentar a arte. É aceitar o esforço e a dedicação continuada que ele exige. É saborear uma satisfação que consome engenho e forças.

Ser artesão é revelar no seu trabalho um apurado sentido estético e grande perícia manual no domínio de saberes e técnicas necessárias à criação das peças.

O trabalho do artesão é experimental, algumas vezes com resultados pouco satisfatórios, mas sendo também eles marcos de aprendizagem e evolução, pois do erro nascem muitas vezes novas leituras.

O trabalho do artesão é uma comunicação constante entre ele, as matérias-primas, as ferramentas e as técnicas utilizadas. Daqui surgem peças apaixonadas, muitas vezes pouco fieis às ideias originais.

Ser artesão é muito diferente do simples ato mecânico repetitivo de manufatura do mesmo produto. Há uma vontade, um desejo, uma ânsia de criar, de descobrir de experimentar sempre mais, sempre algo novo, sempre algo mais… Uma sede de descoberta, um sonho de aperfeiçoar, de se aproximar do belo, do simples, do artístico, do honesto, do genuíno.

Ser artesão é saber contar a história de cada peça, que se cruza com pedaços de si próprio, das suas vivências, dos seus afetos. E para o consumidor será, talvez o desvendar dessa história, o mais significativo para a aquisição de determinada peça e da sua valorização.